Longevidade Excepcional em Homens: Fatores Modificáveis Associados a Sobrevida e Funcionalidade em Nonagenários

Yates LB e cols. – Arch Intern Med. 2008;168(3):284-90

O CONTEXTO

Não há uma definição clara para o termo “longevidade excepcional”, já que esse conceito leva em conta fatores genéticos, de gênero, sócio-econômicos e ambientais, sendo variável conforme a população. Em geral o termo é aplicado a idosos nonagenários ou centenários.

Dados de estudos populacionais e com gêmeos nos permitem estimar que a diversidade genética é responsável por não mais do que 35% dos fatores que determinam a longevidade excepcional, restando assim pelo menos 65% de fatores ambientais potencialmente modificáveis. No entanto, os fatores modificáveis capazes de promover longevidade excepcional nunca foram claramente identificados.

Estudos com nonagenários e centenários são tipicamente retrospectivos ou transversais, incluem poucos participantes e têm uma grande predominância de mulheres. Devido a essas limitações, é difícil estabelecer que fatores, numa fase mais precoce da vida, poderiam explicar longevidade excepcional, boa saúde e preservação de funcionalidade. O estudo aqui discutido avança nessa direção, utilizando dados prospectivos de homens participantes do Physicians Health Study (PHS), um grande ensaio clínico que recrutou 22.071 médicos americanos saudáveis entre 1981 e 1984 para estudar os efeitos de AAS e betacaroteno na prevenção primária de doença cardiovascular e câncer.

O ESTUDO

Participaram do estudo 2357 homens que nasceram antes de 1916 e teriam, portanto, potencial para atingir pelo menos 90 anos até 2006. Em um seguimento de 25 anos os participantes preencheram questionários anuais informando mudanças de hábitos e estilo de vida, assim como o desenvolvimento de doenças crônicas e dos desfechos de interesse. Alguns aspectos de funcionalidade, saúde mental e qualidade de vida foram avaliados através do instrumento SF-36.

A idade no momento da inclusão variou de 66 a 84 anos (média 72). Novecentos e setenta homens (41%) sobreviveram até pelo menos 90 anos. Os fatores de risco independentes para morte antes dos 90 anos foram tabagismo (HR 2,1;IC95% 1,75-2,51), diabetes (HR 1,86;IC95% 1,52-2,26), obesidade (HR 1,44;IC95% 1,10-1,90) e hipertensão (HR 1,28;IC95% 1,15-1,46). Atividade física regular representou um fator protetor (HR 0,72 a 0,81, com p para tendência = 0,003).

Os fatores relacionados à sobrevida também tiveram impacto importante em aspectos de funcionalidade e saúde mental. O impacto dos fatores modificáveis em funcionalidade estão descritos na tabela abaixo. Para comparação foi obtido um escore de capacidade física com escala de 0 a 100, contemplando auto-cuidado, mobilidade, capacidade de carregar objetos e participar de atividades moderadas a vigorosas.

 

Fator Diferença em Capacidade Física (IC95%)
IMC
³ 25 – 5,7 (-8,9 a -1,2)
< 25 1 (referência)
Tabagismo
Antecedente ou Atual −6,41 (−10,3 a −2,6)
Nunca 1 (referência)
Consumo de álcool (nº dias/semana)
Diariamente 1,51 (−3,4 a 6,4)
1-6 2,29 (−2,6 a 7,1)
<1 1(referência)
Atividade Física (nº vezes/semana)
³ 5 1,93 (−3,4 to 7,3)
2-4 6,41 (2,3 a 10,6)
≤ 1 1 (referência)

VALIDADE INTERNA

Comentário de Aline Thomaz Soares (E2)

O desenho desse estudo (coorte prospectivo) permite inferir relação causa-efeito entre fatores de risco e desfechos propostos. Apresenta outros pontos fortes como uma amostra bastante representativa (2357 homens médicos saudáveis) e um longo seguimento (25 anos) dos indivíduos.

Entretanto, o estudo também apresenta algumas falhas metodológicas:

1) Não deixa claro quais os critérios utilizados para classificar os indivíduos como saudáveis;

2) Não analisa o índice de comorbidades por paciente;

3) Não descreve o perfil sócio-demográfico da população: estado civil, suporte familiar, morar sozinho, renda média, não separa os aposentados dos que ainda trabalhavam e se trabalham qual a carga horária e grau de estresse no trabalho (não podemos esquecer que se tratam de médicos), entre outros possíveis fatores que poderiam influenciar os resultados do estudo;

4) O uso de avaliações periódicas com questionário auto-aplicável pode prejudicar os dados coletados de acordo com a cooperação dos indivíduos e apresenta a possibilidade de não condizer com a verdade,

5) Não descreve quais as duas perguntas (instrumento válido?) utilizadas para avaliar depressão;

6) O instrumento utilizado para avaliar funcionalidade, saúde mental e qualidade de vida restringiu-se unicamente ao questionário sobre Qualidade Vida SF-36 – o que pode subestimar o impacto destes fatores de risco na longevidade da amostra estudada. Além disso, foi aplicado apenas uma vez, no 16º ano do estudo;

7) Em nenhum momento foi citado o fato de possível presença de distúrbio cognitivo nessa população – será que ninguém desenvolveu essa patologia? Todos os indivíduos apresentavam cognição perfeita até o último ano da avaliação?

8 ) A caracterização do perfil lipídico foi inadequada frente aos conhecimentos atuais, visto que o valor de corte para colesterol total a ser considerado como fator de risco cardiovascular é >200mg/dL e não >240mg/dL. Além disso, a não descrição do LDL-c e HDL-c, que também são considerados fatores de risco cardiovascular independentes, poderia explicar a exclusão de dislipidemia como fator risco para menor longevidade.

VALIDADE EXTERNA

Comentário do Editor

Estudos com coortes de idosos fornecem documentação farta comprovando uma maior mortalidade na presença de fatores de risco como tabagismo, sedentarismo, obesidade, hipertensão e diabetes. No entanto, esses fatores de risco não se encontram bem estabelecidos acima dos 85 anos de idade. O maior mérito do trabalho de Yates e cols é demonstrar que os mesmos fatores importantes numa faixa etária mais jovem, continuam a ser importantes nos muito idosos, determinam longevidade excepcional e apresentam impacto importante na funcionalidade dessa população.

Infelizmente a avaliação de funcionalidade pontual e simplificada não nos permite uma análise mais aprofundada desse tópico e a inclusão de apenas alguns fatores de risco clássicos limita a exploração da importância elementos menos óbvios.

Apesar de limitações importantes, o estudo trás argumentos que justificam a extensão dos esforços para promoção de hábitos de vida saudáveis a uma idade cada vez mais avançada.

4 Respostas

  1. A extensão do estudo e fato de ser prospectivo valida sim os dados encontrados. Na época de inicio do estudo o valor referência do colesterol era de 240. Este é o motivo da escolha deste valor. Não se trata de uma tolerância maior para valores acima do ideal para os muito idosos, ainda que este fato possa ser discutido. Em muitos casos, a busca de uma meta ideal pode levar a uam prescrição excessiva de drogas e doses com todas as consequências já conhecidas dos efeitos iatrogênicos.
    O grande mérito é sim, como destacado pelo editor, a demonstração inquestionável do que já é popularmente e agora cientificamente conhecido.
    É crucial que hábitos como atividade física, não tabagismo e peso adequado façam parte da nossa prescrição e da nossa atitude no dia a dia.

  2. Realmente um trabalho muito bom!
    Enfatiza a necessidade de orientações referentes a obesidade, atividade física e tabagismo (10-13% idosos-EUA). Temas importantes e prevalentes, muitas vezes negligenciados na avaliação geriatrica.
    Um trabalho recente do arquives (Arch Intern Med. 2008 Jan 28;168(2):154-8) demonstrou associação entre atividade física e maior tamanho do telomero leucocitário.
    O perfil lipídico não foi avaliado qualitativamente, porém o trabalho reforça a falta de evidências entre controle da dislipidemia e maior sobrevida em idosos.
    Existiu diferença entre os grupos da aspirina e o betacaroteno e a longevidade? Acho que não foi citado no trabalho.
    Concluindo: a avaliação geriatrica deve enfatizar mais o tratamento do tabagismo, obesidade e sedentarismo. Não simplismente falar aos pacientes que eles devem emagrecer e parar de fumar…Temos que otimizar nossas técnicas para aumentar aderência a atividade física(prescrever,orientar melhor…) e tratar o tabagismo.

  3. Um estudo com um número representativo de participantes que confirma os fatores de risco já conhecidos. Acho que seria importante sim, separar as frações do colesterol no inicio. Concordo,quando nos comentários os autores citam que é fundamental para longevidade que o indivíduo não sofra de processos patológicos com ALTO grau de mortalidade e morbidade. Portanto é fundamental adia-los ou evita-los ao máximo.
    Quanto aos preditores de mortalidade EM oldest old, mais importantes que fatores sociodemograficos, tabagismo e obesidade , são o nível de incapacidade, performance física e cognitiva, e saúde auto percebida.

  4. Como já comentado acima os maiores méritos do estudo é o tamanho da amostra, o fato de ser prospectivo e o longo tempo de seguimento.
    A utilidade prática é nos mostrar dados científicos que mesmo para os muito idosos vale a pena insistir em manter e até mesmo iniciar a prática de hábitos de vida saudáveis!
    Um dado extremamente importante, mas analisado de forma imprecisa, foi a funcionalidade desses indivíduos. Será que além de viver mais, os pacientes que praticaram hábitos de vida saudável até uma idade mais avançada preservaram a funcionalidade? Parece-nos que sim… Portanto, viver mais e manter maior independência funcional demonstram ser condições intrinsecamente ligadas e nós deixa mais uma vez curiosos por respostas de como manter o bom status funcional ao longo dos anos – esse estudo nos aponta caminhos – hábitos de vida saudáveis e… busquemos as respostas!!!!!!

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