Exercício Aeróbico, Resistido ou Combinado? Efeitos sobre Resistência insulínica e Limitação Funcional em Idosos

Davidson LE e cols – Arch Intern Med 2009;169:122-31

CONTEXTO

Em diretrizes específicas para idosos, a American Heart Association e o American College of Sports Medicine consideram a atividade física essencial na promoção do envelhecimento saudável. Nas diretrizes, a combinação de atividade aeróbica e resistida é preconizada como estratégia para prevenir os riscos associados a um grande número de doenças crônicas e evitar incapacidade funcional (1).

Apesar de existirem boas evidências para preconizar atividade física aeróbica (Classe I; Nível  A) e resistida (Classe IIa; Nível A), a recomendação de combinar as duas modalidades é baseada essencialmente em evidências indiretas e no raciocínio fisiológico de que possam apresentar um papel complementar ou até mesmo sinérgico em diversos aspectos da promoção à saúde. Mas a superioridade da combinação em relação à prática de cada modalidade isoladamente não está demonstrada em bons ensaios clínicos.

Os benefícios conferidos pela atividade física regular são múltiplos e abrangem diversos domínios. Em idosos, desfechos relacionados a risco cardiovascular e funcionalidade apresentam papel de destaque por sua relevância clínica.

Por conta das suas características metodológicas, os estudos que avaliam o papel da atividade física reúnem um número limitado de participantes e devem utilizar marcadores cardiovasculares intermediários, mais compatíveis com o tamanho da amostra. A resistência à insulina tem sido cada vez mais utilizada como desfecho em estudos que avaliam o impacto da atividade física, por constituir um fator e risco cardiovascular independente, fortemente associado ao envelhecimento e à obesidade abdominal, e que tem relação inequívoca com desfechos finais de interesse em idosos.

Analisando resistência insulínica e funcionalidade, não há ensaios clínicos que tenham avaliado o impacto dos programas de atividade física combinada quando comparados a cada um dos componentes isoladamente.

ESTUDO

Objetivos: Investigar efeitos do exercício resistido e aeróbico, de forma independente e combinada, sobre resistência insulínica e limitação funcional em idosos com obesidade abdominal.

Delineamento: Ensaio clínico randomizado com cegamento dos avaliadores.

Ambiente: Ambulatorial na Queen’s University, Kingston, Ontário, Canadá.

Participantes: Idosos (n=136) de ambos os sexos (58,2% mulheres), idade entre 60 e 80 anos (média 68 anos), sedentários e com obesidade abdominal. Foram excluídos indivíduos com diabetes, doença cardiovascular ou tabagismo. O recrutamento foi realizado através do envio de correspondências e de anúncio em meios de comunicação.

Intervenções: Os participantes foram randomizados em quatro grupos: (1) controle; (2) exercício resistido: uma série de cada um dos 9 tipos de exercício 3x/semana; (3) exercício aeróbico: atividade moderada em esteira por 30 min 5x/semana e (4) combinado (resistido 3x/semana + esteira 30 min 3x/semana). O programa teve duração de seis meses e foi mantido inalterado, com adaptações apenas para acompanhar o desempenho.

Desfechos e Medidas: Os principais desfechos foram definidos como resistência insulínica e limitação funcional. A resistência insulínica foi medida de 36 a 48 horas após a última sessão de exercícios, através das médias de 3 horas do “clamp euglicêmico-hiperinsulinêmico” (medida da quantidade de glicose consumida para manter a euglicemia durante a infusão endovenosa contínua de insulina). A funcionalidade foi medida através de 4 dos 6 testes descritos por Rikli e Jones para avaliar variáveis fisiológicas relacionadas a independência funcional em idosos: levantar da cadeira repetidas vezes, subir escada, caminhar e levantar peso com as mãos. Um escore composto para os quatro testes foi obtido a partir da média dos z scores.

Resultados: Dos 136 participantes 117 completaram o estudo. O principal motivo de interrupção foi dor musculoesquelética exacerbada pelos exercícios. A taxa média de comparecimento às sessões foi de 91%, sem variação significativa entre os quatro grupos. Em comparação com o grupo controle (0,29M/I), houve diminuição da resistência à insulina significativa apenas nos grupos que desenvolveram atividade aeróbica (6,51M/I) e combinada (9,22M/I), mas não no grupo que desenvolveu atividade resistida (1,84M/I). O escore composto de limitação funcional detectou melhora nos três grupos que realizaram exercícios programados quando comparados ao grupo controle (z -1,01), com atividade física combinada (z +0,52) obtendo superioridade quando comparada ao grupo que desenvolveu apenas exercício aeróbico (z -0,01), mas não quando comparada ao grupo que desenvolveu atividade resistida (z +0,17).

DISCUSSÃO

Davidson LE e cols realizaram um estudo com delineamento inédito, de boa qualidade metodológica e que aborda um tema de grande relevância clínica. A descrição cuidadosa dos programas de exercício, a boa supervisão e as avaliações objetivas feitas por técnicos cegados são pontos positivos que merecem ser citados. Outra qualidade metodológica que merece destaque é a supervisão nutricional rigorosa, garantindo que as variações de resistência à insulina observadas pudessem ser atribuídas unicamente aos programas de exercício, e não às variações de dieta associadas.

A seleção de uma amostra de idosos relativamente jovens, saudáveis e motivados (recrutados através de anúncios) foi importante no sentido conseguir aderência excelente ao programa. Por outro lado, os critérios de seleção demasiadamente restritos limitam a validade externa do estudo. Para que se tenha uma idéia do quão seletivos foram os critérios, basta citar que dos 1876 idosos que se candidataram ao programa, 1740 (93%) não chegaram a participar.

Os achados convergem para apontar que a combinação de atividade aeróbica e resistida seria a estratégia ideal, por conseguir simultaneamente os maiores benefícios na redução de resistência à insulina e nas limitações funcionais. Um fator particularmente animador nesse contexto é a praticidade do programa que se mostrou mais efetivo (50 minutos 3x/semana).

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